
Ninguém que esteve no leilão da praça central de Salvador naquela tarde
sufocante de abril de 1859, jamais esqueceria a cena. Quando Violeta
subiu ao tablado, o murmúrio da multidão cessou instantaneamente.
Ela tinha 24 anos, pele negra que brilhava como ébano polido sob o sol
escaldante. Cabelos crespos presos em tranças. elaboradas que em molduravam um
rosto de beleza tão extraordinária que parecia esculpido por mãos divinas. Seus
olhos eram profundos, negros como a noite, e carregavam uma tristeza
ancestral que tocava até os corações mais endurecidos.
O leiloeiro, um homem calejado que vendia seres humanos havia 20 anos, teve
que respirar fundo três vezes antes de conseguir anunciar o início dos lances.
Quando o martelo finalmente bateu, o coronel Domingos Ferreira da Costa havia
pago 15 contos de réis, o valor mais alto já registrado em toda a história
dos leilões da Bahia. Mas três meses depois, todos na fazenda
descobririam que aquela compra traria uma tragédia que marcaria a região para
sempre. A fazenda Santa Rita do Recôncavo era uma das maiores produtoras
de açúcar e fumo de toda a Bahia. Suas terras se estendiam por 1200 haares
trabalhadas por 340 escravos distribuídos em oito cenzalas que
formavam uma pequena vila ao redor da Casa Grande. O engenho funcionava dia e
noite durante a safra, as moendas girando sem parar, o cheiro de caldo de
cana e melaço impregnando o ar. A Casa Grande era uma construção imponente de
três andares, com azulejos portugueses nas paredes, móveis importados da Europa
e uma capela privativa, onde gerações da família haviam sido batizadas, casadas e
veladas. Ali vivia o coronel Domingos, um homem de 53 anos, cuja vida havia
sido dividida entre glórias e perdas devastadoras.
Domingos havia se casado aos 27 anos com dona Isabel Mendes de Albuquerque, filha
de um senhor de engenho ainda mais rico que seu pai, numa aliança que uniu duas
das famílias mais poderosas do recôncavo baiano. O casamento durou 23 anos e foi,
aos olhos de todos exemplar. Isabel era conhecida por sua bondade, sua voz
melodiosa no saraus, sua mão firme na administração da Casagrande. Tiveram
cinco filhos. Rodrigo, nascido em 1829,
Beatriz em 1832, os gêmeos Miguel e Antônia em 1835.
E por último Gabriel em 1840. A família parecia abençoada, destinada a
continuar próspera por séculos. Mas em setembro de 1856,
uma epidemia de cólera varreu o recôncavo como a foice da morte. Em 40
dias terríveis, Domingos assistiu sua família inteira ser dizimada. Isabel
morreu primeiro depois de uma semana de agonia. Beatriz foi a segunda com apenas
24 anos. Deixando dois filhos pequenos que também sucumbiriam a doença. Os
gêmeos morreram no mesmo dia, separados por apenas 3 horas. Rodrigo, o
primogênito, lutou por duas semanas antes de se render. Gabriel, o caçula,
de 16 anos, foi o último chamando pela mãe em seus momentos finais.
Domingos enterrou todos eles no cemitério da fazenda, sob uma grande mangueira centenária,
11 cruzes brancas, incluindo as dos netos. Naquele dia, a luz se apagou em
seus olhos. Os três anos seguintes foram de vazio absoluto. Domingo se tornou um
fantasma em sua própria casa, cumprindo mecanicamente suas obrigações, mas sem
vida nos gestos. Os saraus cessaram. As visitas pararam. O silêncio se instalou
nos corredores que antes ecoavam com risos infantis. Foi seu feitor, Jonas
Pereira, homem duro e prático, quem finalmente o convenceu a ir ao leilão de
Salvador. Coronel precisa de uma mucama nova para cuidar da casa grande. As que
temos não sabem lidar com as coisas finas que assim a Isabel deixou. Há um leilão grande chegando. Dizem que vem
escravas treinadas, educadas. Domingos concordou mais para calar o
feitor do que por real interesse. A viagem até Salvador levou dois dias.
Domingos viajou em silêncio, olhando pela janela da carruagem, sem ver nada.
realmente hospedou-se no grande hotel da Bahia, num quarto luxuoso que lhe
parecia vazio e sem sentido. Na manhã do leilão, vestiu o seu melhor terno preto,
colocou o chapéu de abas largas e dirigiu-se à praça. O mercado estava
lotado. Fazendeiros de todo o Recôncuo, comerciantes da capital, senhores de
engenho de Sergipe e até de Pernambuco se acotovelavam para ver a mercadoria.
O calor era insuportável. O cheiro de corpos suados, misturado com excrementos, formavam uma nuvem
nauseante. Domingos mantinha um lenço perfumado no rosto, circulando entre os
grupos de escravos expostos como gado. Foi então que viu Violeta. Ela estava
num tablado separado, junto com seis outras mulheres claramente destinadas ao
serviço doméstico nas grandes casas. Mas Violeta era diferente, não apenas pela
beleza impressionante, mas pela presença, pela forma como se mantinha ereta, apesar das correntes nos
tornozelos, pelo olhar que não se curvava diante de ninguém. Usava um
vestido simples de algodão cru, mas carregavam uma dignidade que nenhuma roupa poderia conferir ou remover. Senti
os olhos eram profundos, negros como a noite, e carregavam uma tristeza
ancestral que tocava até os corações mais endurecidos. Domingo sentiu algo que não
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