“MAMÃE, POR QUE ME ABANDONOU”?, GRITOU A FILHA DA ESCRAVA — MAS A REAÇÃO DA SINHÁ NINGUÉM ESPERAVA..

Mamãe, por que me abandonou?”, gritou a filha da escrava, mas a reação da senhá

ninguém esperava. Olá, meu amigo e minha amiga. Aqui é Miguel Andrade, o narrador

de segredos da Senzala. E hoje você vai conhecer uma história que vai mexer com cada pedaço do seu coração. Antes de

começarmos, inscreva-se no canal e me diga nos comentários de onde você está nos ouvindo. É sempre emocionante saber

até onde nossas histórias chegam. Prepare-se, porque a emoção começa agora. O sol de dezembro castigava a

terra vermelha da fazenda Santa Isabel, no Vale do Paraíba, [música] interior de São Paulo, no ano de 1857.

Entre os cafezais que se estendiam até onde a vista alcançava, uma pequena procissão subia o morro, onde ficava o

cemitério dos escravizados, um canto esquecido da propriedade, cercado por

cruzes de madeira tortas e sem nome. À frente caminhava Luía, menina negra de

apenas 6 anos, com um vestidinho de chitão remendado e os pés descalços

sangrando nas pedras do caminho. Seus olhos miúdos brilhavam de lágrimas

contidas e nos braços magros levava um ramalhete de flores do campo que havia

colhido sozinha ao amanhecer. Atrás dela, a uma distância respeitosa,

seguia-se a Amélia, dona da fazenda, mulher de 40 e poucos anos, vestida de

negro rigoroso, com um véu de renda que escondia parte do rosto pálido e marcado

pela insônia. O vento quente trazia o cheiro de terra seca misturado ao aroma

adocicado do café maduro, e o silêncio pesado era quebrado apenas pelo canto

distante dos escravos nas lavouras e pelo arrastar do vestido de seda da ciná

sobre as pedras. Ninguém mais acompanhava aquela visita estranha, nem Senr. Augusto, marido de Amélia, nem as

Mucamas da Casagre, nem sequer pai Joaquim, o escravo mais velho que costumava rezar pelos mortos. Era como

se aquele momento pertencesse apenas aquelas duas mulheres, uma criança

abandonada e uma senhora atormentada por um segredo que a consumia por dentro.

Quando chegaram ao topo do morro, Luía parou diante de uma cruz simples fincada

na terra fofa e recém revolvida. Ali havia sido enterrada Joana, sua mãe,

apenas três semanas antes. [música] A menina ajoelhou-se com dificuldade, os

joelhos finos afundando na terra úmida e colocou as flores silvestres sobre o

monte que marcava a sepultura. Suas mãos pequenas tremiam enquanto

arrumava cada flor com cuidado, [música] como se preparasse um altar para a mãe que nunca mais veria. Sim. A Amélia

permaneceu de pé alguns passos atrás, observando a cena com uma expressão indecifável no rosto. Havia dor ali, mas

também culpa, uma culpa tão profunda que parecia corroer sua alma como ferrugem

em ferro velho. O céu estava limpo, de um azul intenso e

cruel, sem uma nuvem sequer para oferecer sombra ou consolo, e o calor

fazia o ar tremer sobre as covas esquecidas. De repente, Luía ergueu o rosto para o céu, apertou os punhos

pequenos contra o peito [música] e soltou um grito que ecoou por todo o vale, atravessando os cafezais, a casa

grande, as cenzalas, chegando até o coração gelado de todos que ouviram.

Mamãe, por que me abandonou? A voz fina e desesperada da criança

rasgou o silêncio da tarde como um chicote rasgando carne viva. Ela

repetiu, soluçando entre as palavras: “Por que a senhora foi embora e me deixou sozinha? Eu fui menina ruim? Eu

não te amei direito?” As lágrimas desciam pelo rosto sujo de terra, desenhando [música] trilhas

brilhantes nas bochechas magras, enquanto seu corpinho tremia todo em

convulsões de choro. Sim. Amélia sentiu as pernas fraquejarem e precisou

segurar-se no tronco de uma árvore próxima para não desabar ali mesmo. Sob

o véu negro, seu rosto se contorceu numa máscara de sofrimento silencioso e ela

levou a mão enluvada à boca para abafar um gemido de angústia que ameaçava

escapar. Aquela pergunta inocente da menina era como uma lâmina afiada

atravessando seu peito, [música] revirando feridas. que ela tentava manter escondidas debaixo de vestidos

caros e postura aristocrática. Porque sim a Amélia sabia, Deus do céu,

como ela sabia que Joana não havia abandonado a filha por escolha própria.

A verdade era muito mais sombria, muito mais cruel e pesava sobre os ombros da

Simá como uma cruz de chumbo que ela carregaria até o túmulo. [música] Três semanas atrás, numa noite quente de

novembro, Joana havia sido espancada até a morte no tronco da fazenda, por ordem

do Senhor Augusto, acusada de um crime que jamais cometera. E sim a Amélia, que

conhecia a verdade, que poderia ter impedido aquela barbaridade com uma única palavra. Havia permanecido calada,

trancada em seu quarto, tampando os ouvidos para não escutar os gritos da escrava inocente. O motivo daquela

covardia era o segredo mais perigoso da fazenda Santa Isabel. Um segredo que se

revelado destruiria não apenas o casamento de Amélia, mas toda a estrutura de poder e honra que

sustentava aquela família há três gerações. Joana sabia demais, tinha visto demais e

havia se tornado uma testemunha incômoda de algo que jamais deveria vir à luz.

Agora, olhando para aquela criança órfã chorando sobre a sepultura da [música] mãe, Amélia sentia o peso esmagador da

culpa transformar-se em algo ainda pior. Remorço verdadeiro, aquele tipo de

arrependimento que corroi a alma e não permite descanso nem nesta vida, nem na

próxima. Ela queria gritar, queria se ajoelhar ali mesmo ao lado da menina e

confessar tudo, implorar perdão, rasgar aquelas roupas finas e assumir a

responsabilidade pelo sangue inocente derramado. Mas o medo, esse sentimento

covarde e visal, mantinha sua boca fechada e seu corpo rígido, presa das

convenções sociais e do terror de perder tudo o que [música] possuía. Luía

continuava ali ajoelhada na terra vermelha, conversando com a cruz, como se a mãe pudesse ouvi-la do outro lado

 

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